Treinamento de força em máquinas melhora a capacidade funcional de idosos: evidências de revisão sistemática e meta-análise

Treinamento de força em máquinas melhora a capacidade funcional de idosos: evidências de revisão sistemática e meta-análise

O treinamento de força é uma intervenção amplamente investigada para atenuar perdas funcionais associadas ao envelhecimento. A redução da força muscular, da massa muscular e da densidade mineral óssea contribui para piora do equilíbrio, aumento do risco de quedas, maior probabilidade de fraturas e redução da independência funcional. Nesse contexto, a manutenção da força não deve ser interpretada apenas como um objetivo estético ou esportivo, mas como uma variável diretamente relacionada à autonomia, à qualidade de vida e à capacidade de realizar atividades da vida diária.

O artigo de Kirk, Steele e Fisher, publicado em 2024 no Journal of Functional Morphology and Kinesiology, investigou uma questão relevante para a prescrição do treinamento em idosos: exercícios realizados exclusivamente em máquinas de musculação são capazes de melhorar a capacidade funcional, mesmo sem reproduzir diretamente os movimentos da vida diária? A pergunta é importante porque parte da literatura e de algumas propostas práticas sustenta que o treinamento para idosos deveria priorizar exercícios “funcionais”, isto é, movimentos que imitam tarefas cotidianas, desafiam o equilíbrio ou envolvem padrões motores complexos. Os autores, entretanto, analisaram se uma abordagem mais simples, segura e facilmente quantificável, baseada em máquinas de resistência, também produz ganhos funcionais mensuráveis.

A revisão sistemática incluiu estudos com adultos saudáveis acima de 60 anos, submetidos a intervenções de treinamento de força com duração mínima de 6 semanas. Um critério central foi que os programas deveriam utilizar apenas máquinas de resistência. Estudos que incluíram pesos livres, elásticos, exercícios com peso corporal, treinamento aeróbio, equilíbrio, alongamento, calistenia ou outras formas de treinamento adicional foram excluídos. Essa decisão metodológica é relevante, pois permitiu isolar com maior precisão os efeitos do treinamento em máquinas sobre força e funcionalidade.

Os desfechos funcionais analisados foram o timed up and go e o sit to stand. O timed up and go avalia a capacidade de levantar de uma cadeira, caminhar, contornar um ponto e retornar à posição sentada. Esse teste é usado como indicador de mobilidade, velocidade de marcha, equilíbrio dinâmico e risco de quedas. O sit to stand avalia a capacidade de levantar e sentar repetidamente a partir de uma cadeira, sendo frequentemente utilizado como indicador de força funcional de membros inferiores e desempenho em tarefas cotidianas. A escolha desses testes foi adequada porque ambos são simples, amplamente utilizados e relacionados a outras medidas de funcionalidade em idosos.

Após o processo de busca e seleção, 17 estudos foram incluídos na revisão sistemática. Desses, 15 foram incluídos na meta-análise dos desfechos funcionais, totalizando 614 participantes, e 11 foram incluídos na meta-análise dos desfechos de força, totalizando 511 participantes. No conjunto completo dos 17 estudos, houve 897 participantes, dos quais 630 eram mulheres, correspondendo a aproximadamente 70% da amostra. A média de idade entre os estudos foi de 70,2 anos, com valores variando de 63,9 a 78,9 anos. Todos os estudos relataram que os participantes eram destreinados ou não estavam envolvidos em programas prévios de treinamento de força.

A qualidade metodológica foi avaliada pela escala SMART LD, específica para estudos longitudinais com treinamento de força. Oito estudos foram classificados como de boa qualidade, com pontuações entre 16 e 20 pontos, e nove foram classificados como de qualidade razoável, com pontuações entre 12 e 15 pontos. Nenhum estudo foi classificado como de baixa qualidade por esse critério. Esse ponto fortalece a interpretação geral dos achados, embora não elimine limitações relacionadas à heterogeneidade dos protocolos e à ausência de padronização completa das variáveis de treinamento.

As intervenções apresentaram variação considerável. A duração dos estudos variou de 6 semanas a 12 meses, com mediana de 12 semanas. A frequência semanal foi de 2 ou 3 sessões por semana, com mediana de 2 sessões. O número total possível de sessões variou de 12 a 104, com mediana de aproximadamente 25,8 sessões. Em média, os programas utilizaram cerca de 2,5 séries por exercício e 11 repetições por série. A carga média estimada foi de 63 ± 23% de uma repetição máxima, embora alguns estudos não tenham relatado claramente a carga utilizada.

Os exercícios mais frequentes para membros inferiores foram leg press, extensão de joelhos e flexão de joelhos. Para membros superiores, os mais frequentes foram chest press, puxada para latíssimo do dorso e remada sentada. Em média, os estudos utilizaram seis exercícios por programa, sendo três para membros superiores e três para membros inferiores. Seis estudos utilizaram máquinas pneumáticas, sete utilizaram máquinas seletorizadas, um utilizou máquina com carga por anilhas e quatro não especificaram claramente o tipo de máquina ou fabricante, embora tenham declarado o uso de treinamento baseado em máquinas.

O principal resultado foi que o treinamento de força em máquinas melhorou significativamente a capacidade funcional dos idosos. Na meta-análise dos desfechos funcionais, o treinamento em máquinas apresentou mudança média padronizada de 0,72, com intervalo de credibilidade de 95% entre 0,39 e 1,07. Em comparação, as condições controle apresentaram mudança média padronizada de apenas 0,09, com intervalo de credibilidade de 95% entre menos 0,10 e 0,28. A diferença relativa entre treinamento e controle foi estimada em 0,63, com intervalo de credibilidade de 95% entre 0,23 e 1,04. Esses valores indicam um efeito favorável ao treinamento em máquinas sobre testes funcionais, embora com heterogeneidade considerável entre os estudos.

Os resultados de força seguiram padrão semelhante. A meta-análise dos desfechos de força mostrou mudança média padronizada de 0,71 para os grupos que treinaram em máquinas, com intervalo de credibilidade de 95% entre 0,34 e 1,08. Nos grupos controle, a mudança foi de 0,10, com intervalo de credibilidade de 95% entre menos 0,05 e 0,24. A diferença relativa entre treinamento e controle foi estimada em 0,61, com intervalo de credibilidade de 95% entre 0,21 e 1,01. Portanto, o treinamento em máquinas aumentou tanto a força quanto a capacidade funcional em idosos.

Um ponto conceitual relevante do artigo é a discussão sobre especificidade e transferência. O treinamento em máquinas é frequentemente criticado por limitar os movimentos a trajetórias guiadas e por não reproduzir diretamente tarefas da vida diária. Essa crítica parte da ideia de que, para melhorar uma função, seria necessário treinar movimentos semelhantes à função desejada. No entanto, os resultados da revisão indicam que essa interpretação é insuficiente. Mesmo sem desafiar explicitamente o equilíbrio, sem reproduzir tarefas cotidianas e sem utilizar movimentos considerados “funcionais”, o treinamento em máquinas melhorou testes como timed up and go e sit to stand.

A explicação mais provável é que o aumento da força muscular pode ser transferido, ao menos parcialmente, para tarefas funcionais que utilizam musculatura semelhante. Essa ideia é compatível com o conceito de generalidade da força. Embora a adaptação motora seja específica em muitos aspectos, especialmente quando se considera coordenação, velocidade, direção da força e padrão técnico, o aumento da capacidade de produzir força em grupos musculares relevantes pode melhorar o desempenho em tarefas que dependem desses mesmos grupos musculares. Portanto, os dados não sustentam a afirmação simplista de que idosos precisam necessariamente realizar exercícios instáveis, complexos ou semelhantes às tarefas cotidianas para obter ganhos funcionais.

Isso não significa que exercícios com pesos livres, elásticos, tarefas funcionais ou estratégias de equilíbrio sejam inúteis. O próprio artigo reconhece que essas abordagens podem ser utilizadas quando realizadas com segurança. A conclusão mais precisa é outra: esses métodos não parecem ser obrigatórios para iniciar uma intervenção eficaz de treinamento de força em idosos. Programas simples, baseados em máquinas, podem produzir ganhos significativos de força e funcionalidade.

Do ponto de vista prático, esse achado é relevante porque máquinas de resistência apresentam vantagens operacionais. Elas permitem maior controle da carga, facilitam a progressão, reduzem a complexidade técnica inicial e podem ser mais seguras para indivíduos idosos, especialmente aqueles com baixa experiência prévia em treinamento de força. O artigo também destaca que lesões relacionadas ao treinamento com pesos livres são mais frequentemente associadas à queda de pesos ou à manipulação de cargas livres, enquanto as máquinas geralmente mantêm o praticante em posição mais estável e restringem a trajetória da resistência.

Outro aspecto importante é que os benefícios foram observados apesar da grande variação entre os protocolos. Houve diferenças na duração dos estudos, no número de exercícios, na frequência semanal, nas séries, nas repetições, na carga, na velocidade de execução e no esforço. Mesmo assim, os resultados foram consistentemente favoráveis ao treinamento em máquinas. Isso sugere que, para idosos destreinados, diferentes combinações de variáveis podem ser eficazes, desde que o programa envolva treinamento resistido estruturado e progressivo.

A revisão, porém, não permite concluir que o aumento de força foi necessariamente a causa direta da melhora funcional. Os autores foram cautelosos ao reconhecer que o estudo não testou formalmente se os ganhos de força mediaram causalmente as melhoras em timed up and go ou sit to stand. Outros fatores, como melhora da confiança, maior familiaridade com o esforço físico, alterações perceptivas ou adaptações neuromusculares não medidas, também podem ter contribuído para os resultados. Ainda assim, considerando que tanto a força quanto a funcionalidade aumentaram de modo consistente, a hipótese de relação causal parcial entre ambas é plausível.

A principal limitação da revisão foi a heterogeneidade dos estudos. As intervenções variaram substancialmente, e muitos protocolos não relataram com precisão variáveis importantes, como intensidade de esforço, duração das repetições ou características completas das máquinas. Além disso, a revisão não foi previamente registrada antes da condução da análise, embora os autores tenham realizado registro retrospectivo posteriormente. Esse ponto não invalida os resultados, mas reduz a força inferencial em comparação com uma revisão prospectivamente registrada.

Em síntese, a evidência apresentada por Kirk, Steele e Fisher indica que o treinamento de força realizado exclusivamente em máquinas melhora a força e a capacidade funcional de idosos saudáveis. Os resultados desafiam a ideia de que o treinamento para idosos precisa necessariamente imitar tarefas cotidianas ou utilizar exercícios instáveis para ser funcionalmente relevante. A melhora da função pode ocorrer por meio de intervenções simples, controláveis e seguras, desde que elas promovam adaptações neuromusculares relevantes.

A aplicação prática é direta: profissionais que trabalham com idosos podem prescrever treinamento de força em máquinas como estratégia válida para melhorar força, mobilidade e desempenho funcional. A simplicidade do método não deve ser confundida com baixa efetividade. Ao contrário, a possibilidade de controlar carga, volume, progressão e segurança torna as máquinas uma opção especialmente adequada para o início ou manutenção do treinamento de força em populações idosas.

Referência

Kirk, A.; Steele, J.; Fisher, J. P. Machine Based Resistance Training Improves Functional Capacity in Older Adults: A Systematic Review and Meta Analysis. Journal of Functional Morphology and Kinesiology, 2024, 9, 239. https://doi.org/10.3390/jfmk9040239.

Autor : Bernardo N. Ide