Nos últimos anos, alguns termos têm sido
difundidos em cursos, palestras e redes sociais como se representassem avanços
conceituais no treinamento físico. Um deles é a expressão “treinamento
anti-glicolítico” ou “estímulo anti-glicolítico”. À primeira vista, o termo
pode parecer sofisticado. Porém, do ponto de vista bioquímico, ele é
inadequado.
O problema começa pelo próprio significado
da expressão. Chamar um estímulo de “anti-glicolítico” sugere que ele se opõe à
glicólise, que evita a glicólise ou que produz adaptações por uma espécie de
antagonismo ao metabolismo glicolítico. Essa interpretação não se sustenta. A
glicólise não é um erro metabólico, não é um processo indesejável e não é uma
via que precisa ser combatida durante o treinamento. Ela é uma das vias
centrais do metabolismo energético celular [1].
A glicólise corresponde à sequência de
reações que degrada glicose ou glicogênio para fornecer energia e
intermediários metabólicos [1]. Em tecidos animais, especialmente no músculo esquelético, essa via
está integrada ao metabolismo oxidativo, ao sistema fosfagênio, ao balanço
redox e ao transporte de lactato entre células e tecidos [1-3].
Portanto, não faz sentido tratar a glicólise como se fosse uma via isolada,
negativa ou incompatível com adaptações desejáveis.
Um dos erros que favorece o uso desse termo
é a velha associação entre glicólise, lactato, acidose e fadiga. Durante muito
tempo, o lactato foi apresentado como um resíduo metabólico, produzido apenas
quando faltava oxigênio, responsável pela acidose e diretamente associado à
fadiga [4]. Essa
explicação ainda aparece em discursos simplificados, mas não representa
adequadamente o conhecimento bioquímico atual.
A produção de lactato não significa
ausência de oxigênio [4].
Também não significa, por si só, acidose. A reação catalisada pela lactato
desidrogenase converte piruvato em lactato e, nesse processo, participa da
regeneração de NAD⁺, permitindo a
continuidade da glicólise [1]. Além disso, a formação de lactato consome H⁺, em vez de ser a principal causa da acidificação
celular [1]. Assim, usar o lactato como sinônimo de “metabolismo
ruim” é uma interpretação ultrapassada.
A acidose observada no exercício intenso
está mais relacionada ao balanço entre hidrólise de ATP, ressíntese de ATP,
tamponamento, transporte de íons e capacidade mitocondrial de utilização de
prótons [1]. Quando a demanda energética excede a capacidade momentânea de
ressíntese oxidativa de ATP, ocorre maior dependência de vias não
mitocondriais, como o sistema fosfagênio e a glicólise. Nesse contexto, pode
haver aumento da concentração de lactato e redução do pH. Porém, isso não
significa que o lactato seja a causa da acidose.
Outro ponto importante é que o lactato não
deve ser interpretado como produto exclusivo de condições anaeróbias [4, 5]. Em
tecidos com oxigênio disponível, a glicólise continua ocorrendo e o lactato
pode ser formado continuamente. O que muda entre diferentes condições
metabólicas não é simplesmente “produz lactato” ou “não produz lactato”, mas
sim a taxa de produção, a taxa de remoção, a oxidação, o transporte entre
células, a utilização por outros tecidos e o acúmulo líquido no sangue ou no
músculo.
Portanto, quando alguém propõe um treino
“anti-glicolítico”, é necessário perguntar: anti-glicolítico em que sentido? O
treino inibe a glicólise? Elimina a participação glicolítica? Impede a formação
de lactato? Nenhuma dessas afirmações é metabolicamente adequada.
O que geralmente se tenta descrever com
esse termo é outra coisa: sessões com esforços muito curtos, alta potência
mecânica, pausas longas e baixa densidade, nas quais se busca reduzir o acúmulo
de lactato e preservar a qualidade das repetições. Esse tipo de organização
pode ter lógica prática. O erro está em nomeá-la como “anti-glicolítica”.
Se o exercício é muito curto, a
contribuição inicial do sistema fosfagênio tende a ser elevada. Durante a
pausa, a ressíntese de fosfocreatina depende fortemente do metabolismo
oxidativo. Com intervalos suficientemente longos, pode-se repetir esforços de
alta intensidade com menor acúmulo progressivo de lactato e menor perturbação
acidobásica. Isso não torna o estímulo anti-glicolítico. Torna-o um estímulo de
alta potência, baixa densidade e menor contribuição glicolítica relativa.
Essa distinção não é apenas semântica. A
forma como nomeamos um fenômeno influencia a forma como ele é ensinado,
interpretado e aplicado. Quando se diz “anti-glicolítico”, cria-se a impressão
de que a glicólise é um obstáculo ao desempenho, quando, na verdade, ela é
parte indispensável da produção de energia durante esforços intensos. O
objetivo do treinamento não é combater vias metabólicas, mas manipular duração,
intensidade, intervalo, densidade e volume para induzir respostas específicas.
A terminologia mais adequada seria, por
exemplo:
·
Estímulo predominantemente
fosfagênico;
·
Treinamento de alta potência
com pausas longas;
·
Sessão de baixa densidade
metabólica;
·
Estímulo com baixa acumulação
de lactato;
·
Treinamento com menor demanda
glicolítica relativa;
·
Método voltado à manutenção da
potência com menor perturbação acidobásica.
Essas expressões descrevem melhor o
fenômeno. Elas não sugerem que a glicólise foi eliminada, inibida ou
antagonizada. Apenas indicam que a estrutura da sessão foi organizada para
reduzir a dependência glicolítica relativa e limitar o acúmulo de metabólitos
associados ao exercício intenso.
O mesmo raciocínio vale para a
interpretação do lactato. Lactato não é inimigo do desempenho. Lactato é
intermediário metabólico, substrato energético, molécula de transporte de
carbono, participante do balanço redox e sinalizador celular [4, 5]. Ele
pode aumentar em situações de alta taxa glicolítica, mas também pode ser
oxidado e utilizado por fibras musculares, coração, cérebro, fígado e outros
tecidos. Reduzir sua função a “resíduo da fadiga” é conceitualmente pobre.
Isso não significa negar que o aumento de
lactato no sangue possa ser útil como marcador indireto de intensidade
metabólica. Em muitas situações, ele informa que a taxa de produção glicolítica
e a perturbação metabólica aumentaram. O erro é transformar esse marcador em
vilão causal ou usá-lo para justificar categorias frágeis, como “treino
anti-glicolítico”.
No treinamento esportivo, a precisão
conceitual importa. Um método pode ser útil na prática e, ainda assim, receber
uma explicação bioquímica incorreta. Esforços curtos, pausas longas e controle
da queda de potência podem ser estratégias relevantes para desenvolver
velocidade, potência, aceleração, mudanças de direção e capacidade de repetir
ações intensas com menor fadiga acumulada. Mas isso não exige o uso do termo
“anti-glicolítico”.
A correção conceitual é simples: não existe
treinamento anti-glicolítico em sentido bioquímico rigoroso. O que existe são
formas de organizar o treino para modular a contribuição relativa das vias
energéticas, limitar o acúmulo de lactato, reduzir a perturbação acidobásica e
preservar a qualidade mecânica dos esforços.
Portanto, o termo “anti-glicolítico” deve ser abandonado. Ele não esclarece; confunde. Ele não representa melhor o metabolismo; apenas substitui uma explicação antiga por outra igualmente problemática. O treinamento não precisa de nomes mais chamativos. Precisa de descrições mais precisas. Em vez de dizer que um estímulo é anti-glicolítico, diga exatamente o que ele é: um estímulo de alta potência, curta duração, baixa densidade e menor demanda glicolítica relativa. Essa formulação é menos comercial, mas é metabolicamente mais correta.
Referências
1. Robergs, R.A., F. Ghiasvand, and D.
Parker, Biochemistry of exercise-induced
metabolic acidosis. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol, 2004. 287(3): p. R502–16.
2. Brooks, G.A., Lactate as a fulcrum of metabolism. Redox Biol, 2020. 35(February): p. 101454.
3. Rogatzki, M.J., et al., Lactate is always the end product of
glycolysis. Front Neurosci, 2015. 9(FEB):
p. 22.
4. Brooks, G.A., et al., Lactate in contemporary biology: a phoenix
risen. J Physiol, 2022. 600(5):
p. 1229–1251.
5. Brooks, G.A., Lactate: link between glycolytic and
oxidative metabolism. Sports Med, 2007. 37(4-5): p. 341–3.