O metabolismo aeróbio permanece predominante durante todo o teste incremental máximo em corredores recreacionais

  • 07-05-2026

Um estudo publicado no Journal of Sports Science and Medicine investigou uma questão conceitualmente relevante para a fisiologia do exercício: qual é a contribuição relativa dos sistemas aeróbio e glicolítico ao longo de um teste incremental em esteira? O trabalho de Bertuzzi e colaboradores teve como objetivo estimar, estágio por estágio, a participação desses sistemas durante um teste incremental até a exaustão em corredores recreacionais de longa distância.

A relevância do estudo está no fato de que muitos conceitos utilizados na prescrição e interpretação do treinamento de endurance ainda são comunicados por terminologias que podem induzir interpretações equivocadas. Um exemplo clássico é o termo “limiar anaeróbio”. A expressão pode sugerir, incorretamente, que a partir de determinada intensidade o metabolismo glicolítico passa a predominar sobre o metabolismo aeróbio. Entretanto, os dados apresentados pelo estudo indicam que essa interpretação não é sustentada pelos resultados observados.

Foram avaliados dez homens corredores recreacionais de longa distância. Os participantes tinham 30 ± 4 anos, massa corporal de 75,7 ± 7,0 kg, estatura de 1,78 ± 0,06 m e percentual de gordura de 15,2 ± 3,8%. Eles treinavam regularmente havia pelo menos dois anos, competiam em provas regionais de 10 km e possuíam tempo pessoal médio de 40 ± 5 minutos nessa distância. O perfil da amostra, portanto, foi composto por indivíduos treinados em endurance, mas não atletas de elite.

O teste incremental foi realizado em esteira, com inclinação fixa de 1%. Após cinco minutos em repouso para determinação do consumo de oxigênio basal e três minutos de aquecimento a 6 km/h, a velocidade foi aumentada em 1,2 km/h a cada três minutos até a exaustão voluntária. Entre os estágios, havia uma pausa de 10 segundos para coleta de sangue capilar do lóbulo da orelha e determinação da concentração de lactato sanguíneo. O consumo de oxigênio foi medido continuamente por analisador de gases, e a frequência cardíaca foi monitorada durante todo o teste.

Os autores estimaram a contribuição aeróbia a partir da área do consumo de oxigênio acima do valor basal, integrada ao longo do tempo. A contribuição glicolítica foi estimada a partir do equivalente energético do acúmulo de lactato sanguíneo, considerando que 1 mmol/L de lactato líquido corresponderia a 3 ml de O2 por kg de massa corporal. A demanda metabólica total foi calculada como a soma das contribuições aeróbia e glicolítica. A contribuição do sistema ATP PCr não foi considerada, pois o protocolo analisado envolvia estágios de três minutos em exercício incremental, e não esforços muito curtos e supramáximos.

Os resultados gerais do teste mostraram que os participantes apresentaram VO2máx de 53,4 ± 2,0 ml/kg/min, frequência cardíaca máxima de 191 ± 3 bpm, velocidade pico em esteira de 18,0 km/h e velocidade associada ao VO2máx de 17,5 ± 1,0 km/h. O limiar aeróbio, definido pela velocidade correspondente a 2 mmol/L de lactato, ocorreu em 12,0 ± 1,0 km/h, equivalente a 76 ± 2% da velocidade pico. O limiar anaeróbio, definido pela velocidade correspondente a 3,5 mmol/L de lactato, ocorreu em 14,4 ± 1,0 km/h, equivalente a 86 ± 1% da velocidade pico.

Durante o teste incremental, a concentração de lactato sanguíneo aumentou progressivamente. Os valores médios foram de 1,3 mmol/L nas velocidades de 6,0, 7,2 e 8,4 km/h; 1,8 mmol/L em 9,6 e 10,8 km/h; 2,2 mmol/L em 12,0 km/h; 2,6 mmol/L em 13,2 km/h; 3,55 mmol/L em 14,4 km/h; 4,7 mmol/L em 15,6 km/h; 5,7 mmol/L em 16,8 km/h; e 8,3 mmol/L em 18,0 km/h. Esses dados mostram uma elevação gradual do lactato com o aumento da intensidade, e não uma mudança abrupta que indicaria uma substituição dominante do metabolismo aeróbio pelo glicolítico.

A frequência cardíaca também aumentou de forma progressiva, passando de 110 ± 15 bpm a 6 km/h para 183 ± 12 bpm a 18 km/h. A ventilação minuto aumentou de 40,7 ± 6,4 L/min para 143,0 ± 12,0 L/min entre o primeiro e o último estágio. O quociente respiratório passou de 0,84 ± 0,05 para 1,15 ± 0,09, refletindo o aumento da dependência relativa de carboidratos e da produção de CO2 associada ao exercício de maior intensidade. Entretanto, mesmo com essas alterações cardiorrespiratórias e metabólicas, a participação aeróbia permaneceu superior à glicolítica em todos os estágios.

Em termos absolutos, a contribuição aeróbia aumentou de 47,2 ± 7,6 kJ a 6 km/h para 183,9 ± 23,5 kJ a 18 km/h. A contribuição glicolítica também aumentou, mas em magnitude muito menor, passando de 2,1 ± 1,0 kJ para 30,6 ± 3,0 kJ entre os mesmos estágios. A demanda metabólica total aumentou de 49,3 ± 7,4 kJ no primeiro estágio para 214,6 ± 25,8 kJ no último estágio.

A análise percentual é a mais relevante para a interpretação conceitual do estudo. A contribuição aeróbia representou 95,7 ± 1,5% da demanda metabólica total a 6 km/h e ainda correspondia a 86,1 ± 4,7% a 18 km/h. A contribuição glicolítica aumentou de 5,3 ± 1,5% para 13,9 ± 4,7% ao longo do teste. Portanto, mesmo no último estágio completo, em uma intensidade associada à exaustão em teste incremental, o metabolismo aeróbio ainda foi amplamente predominante.

Um dado particularmente importante foi observado na velocidade correspondente ao chamado limiar anaeróbio. Nessa intensidade, a aproximadamente 14,4 km/h, os autores relataram que a contribuição aeróbia correspondia a cerca de 93% da demanda metabólica total, enquanto a contribuição glicolítica correspondia a aproximadamente 7%. Isso demonstra que, no ponto tradicionalmente denominado “limiar anaeróbio”, o exercício ainda era predominantemente aeróbio. Portanto, o termo “anaeróbio” não deve ser interpretado como predominância da glicólise anaeróbia na ressíntese de ATP.

Esse achado possui implicação direta para a comunicação científica e para a prescrição do treinamento. O aumento da concentração de lactato sanguíneo durante o exercício incremental não significa que o metabolismo aeróbio deixou de ser predominante. O lactato é produzido e removido continuamente, pode ser utilizado como substrato energético e reflete uma dinâmica complexa entre produção, transporte, oxidação e aparecimento no sangue. Assim, utilizar o aumento do lactato como sinônimo de predominância anaeróbia é uma simplificação inadequada.

O estudo também observou que não houve uma elevação súbita da contribuição glicolítica acima do limiar anaeróbio. A transição entre os sistemas energéticos ocorreu de forma lenta e progressiva. Esse resultado contraria a ideia de que haveria uma mudança abrupta no metabolismo energético em determinada intensidade. Em vez disso, os dados sustentam a interpretação de que os sistemas energéticos interagem continuamente, com predominância aeróbia durante todo o teste incremental e participação glicolítica crescente, porém minoritária.

Outro ponto importante diz respeito ao limiar aeróbio. A velocidade correspondente a 2 mmol/L de lactato ocorreu em torno de 12 km/h. Os autores interpretaram essa intensidade como próxima do ponto em que a contribuição aeróbia atinge seu maior valor relativo antes de iniciar uma redução gradual. Essa observação é coerente com a ideia de que intensidades próximas ao limiar aeróbio representam uma zona de elevado fluxo oxidativo, frequentemente associada a adaptações relevantes para o desempenho em endurance.

Os autores também discutiram que atletas de endurance frequentemente distribuem grande parte do volume de treino em intensidades próximas ou ligeiramente abaixo do limiar aeróbio. Esse padrão pode gerar estímulo oxidativo elevado com menor custo fisiológico relativo do que intensidades mais altas. Contudo, o estudo não testou diretamente estratégias de treinamento; ele apenas fornece uma base fisiológica para interpretar por que intensidades moderadas e sustentáveis podem ser importantes no desenvolvimento da capacidade aeróbia.

A principal conclusão do estudo é que o metabolismo aeróbio é predominante durante todo o teste incremental máximo em corredores recreacionais de longa distância. Embora a contribuição glicolítica aumente com a intensidade, ela não se torna predominante nem mesmo acima do chamado limiar anaeróbio. Além disso, a transição entre as contribuições aeróbia e glicolítica ocorre de maneira gradual, sem o aumento abrupto da participação glicolítica que muitas vezes é implicitamente associado ao conceito de limiar anaeróbio.

Do ponto de vista aplicado, o estudo reforça que termos como “aeróbio” e “anaeróbio” devem ser utilizados com cautela. Exercícios realizados acima do limiar anaeróbio não são, necessariamente, predominantemente anaeróbios. O mais adequado é compreender esses limiares como marcadores fisiológicos relacionados à cinética do lactato, à ventilação e à tolerância ao exercício, e não como fronteiras rígidas entre sistemas energéticos isolados.

Essa distinção é essencial para evitar erros conceituais na interpretação de testes incrementais e na prescrição do treinamento. O exercício de endurance não pode ser explicado por uma simples alternância entre metabolismo aeróbio e anaeróbio. Os sistemas energéticos atuam simultaneamente, e suas contribuições relativas mudam de forma contínua conforme a intensidade, a duração, o nível de treinamento e as características individuais.

Referência

Bertuzzi R, Nascimento EMF, Urso RP, Damasceno M, Lima Silva AE. Energy System Contributions during Incremental Exercise Test. Journal of Sports Science and Medicine. 2013;12:454–460.

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