No ensino superior, quem deve se adaptar: o professor ao repertório da turma ou a turma ao nível da disciplina?

Essa discussão costuma ser apresentada como se houvesse apenas duas opções: ou o professor reduz a disciplina ao nível de conhecimento prévio dos alunos, ou os alunos simplesmente “se virem” para acompanhar o conteúdo. Esse enquadramento é ruim. Ele simplifica um problema pedagógico que, no ensino superior, é mais técnico do que ideológico. (Poorvu Center for Teaching and Learning)

O ponto de partida é claro: alunos não chegam à universidade como uma folha em branco. Eles trazem conhecimentos prévios, lacunas e, muitas vezes, concepções equivocadas. Isso importa porque o aprendizado de conteúdos novos depende, em grande medida, da qualidade desse repertório anterior. Por isso, centros de ensino superior e de desenvolvimento docente recomendam avaliar conhecimentos prévios, identificar lacunas e criar pontes entre o que o aluno já sabe e o que ele precisa aprender. (Poorvu Center for Teaching and Learning)

Mas isso não significa rebaixar o nível da disciplina. No ensino superior, a disciplina precisa manter coerência com seus objetivos de aprendizagem, com o nível acadêmico do curso e com os critérios de avaliação. Em outras palavras, o professor não deve “facilitar” o conteúdo a ponto de descaracterizar a formação universitária. A própria literatura sobre constructive alignment sustenta que resultados de aprendizagem, atividades e avaliação precisam estar logicamente alinhados, e documentos de regulação do ensino superior insistem que o curso deve preservar um nível compatível com a educação superior e promover progressão coerente das aprendizagens. (monash.edu)

Então qual é a posição mais defensável? O professor deve ensinar considerando o ponto de partida real da turma, mas sem adulterar o ponto de chegada da disciplina. Isso implica diagnosticar pré-requisitos, oferecer mediações, organizar sequências didáticas, explicitar critérios, construir apoio inicial e retirar esse apoio progressivamente. Esse processo é chamado de scaffolding e não se confunde com “dar tudo mastigado”. Ao contrário, o objetivo é produzir autonomia intelectual. (Learning and Teaching Hub)

Ao mesmo tempo, o aluno do ensino superior também tem responsabilidade objetiva no processo. Entrar em uma disciplina universitária pressupõe aceitar suas exigências, estudar fora da sala, recuperar lacunas quando necessário e se adequar ao padrão acadêmico esperado. Se toda dificuldade for usada como argumento para baixar a complexidade do conteúdo, o curso perde densidade e o diploma perde valor formativo. (TEQSA)

Portanto, a formulação correta não é “ou o professor se adapta ou o aluno se adapta”. Em ensino superior sério, ambos se adaptam, mas em planos diferentes. O professor adapta a estratégia de ensino. O aluno adapta seu nível de estudo às exigências da formação. O que não deve ser adaptado para baixo é o rigor intelectual da disciplina.

Ensinar bem não é nivelar por baixo. Também não é fingir que lacunas não existem. No ensino superior, o dever do professor é construir condições para que o aluno alcance o nível da disciplina. E o dever do aluno é, de fato, alcançá-lo.

Autor : Bernardo N. Ide

Bernardo N. Ide possui Bacharelado em Educação Física (ênfase/linha em Treinamento Esportivo), Mestrado e Doutorado em Biodinâmica do Movimento Humano pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Realizou estágio de Pós-Doutorado pela Unicamp e pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Atuou como professor no curso de Pós-graduação em Bioquímica, Fisiologia, Nutrição e Treinamento Esportivo do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp. Atua como professor e cientista do esporte, com foco em desempenho esportivo, biomecânica e adaptações neuromusculares ao treinamento de força e potência. Ministra disciplinas e atividades práticas na graduação no Centro Universitário UniAnchieta (Jundiaí, SP). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4057-0051 Lattes: http://lattes.cnpq.br/1305524024429092 CREF: 037967-G/SP Contato para consultorias, cursos e palestras: E-mail: [email protected] WhatsApp: +55 19 99852-5332 Instagram: https://www.instagram.com/profbernardonide/