O estudo de Aagaard e colaboradores investigou se um período de treinamento de força com altas cargas seria capaz de aumentar a capacidade de produzir torque rapidamente no início de uma contração muscular máxima, e se essa melhora estaria associada a alterações de ativação neural, inferidas por parâmetros eletromiográficos. A hipótese central foi que ganhos na taxa de desenvolvimento de força, aqui operacionalizada como a inclinação da curva torque-tempo nos primeiros milissegundos de contração, ocorreriam em paralelo a aumentos no “drive neural” eferente ao músculo.
Participantes e desenho experimental
Participaram 15 homens jovens, com média de 23,3 anos, sem experiência prévia em treinamento resistido sistemático. O delineamento foi pré-pós intervenção, com 14 semanas de treinamento de força pesado, totalizando 38 sessões, todas supervisionadas. O programa incluiu exercícios para membros inferiores com ênfase em quadríceps e cadeia posterior, como hack squat, leg press inclinado, extensão de joelhos, flexão de joelhos e elevação de panturrilhas, com progressão de cargas e uso frequente de faixas altas de esforço (aproximadamente 3 a 10 repetições máximas), com incremento do volume e do uso de cargas muito elevadas nas últimas semanas.
Procedimentos de avaliação e variáveis
As avaliações foram realizadas em dinamômetro isocinético, mas sob condição isométrica, com extensão de joelho mantida em 70 graus de flexão (0 grau definido como extensão completa). Os participantes foram instruídos a contrair “o mais rápido e o mais forte possível”, com feedback visual do sinal de força/torque. Sinais do dinamômetro e eletromiografia de vasto lateral, vasto medial e reto femoral foram amostrados a 1.000 Hz.
A taxa de desenvolvimento de força, no caso específico do estudo, foi calculada como taxa de desenvolvimento de torque, isto é, a inclinação média da curva torque-tempo (Δtorque/Δtempo) em janelas a partir do início da contração: 0–30 ms, 0–50 ms, 0–100 ms e 0–200 ms. Também foi calculado o impulso contrátil, definido como a integral do torque no tempo (∫ torque dt) nas mesmas janelas, interpretado pelos autores como um análogo do impulso mecânico que determinaria a aceleração do segmento caso o membro estivesse livre para se mover.
No domínio eletromiográfico, os autores quantificaram amplitude média do sinal (MAV, derivada do EMG integrado dividido pelo tempo de integração) em janelas iniciais, e a taxa de crescimento do EMG (RER, ΔEMG/Δtempo) nos primeiros instantes, com início da integração antecipado em 70 ms em relação ao início do torque para considerar o atraso eletromecânico.
Resultados principais observados
Força máxima isométrica. Houve aumento claro do torque máximo isométrico (MVC), de 291,1 ± 9,8 para 339,0 ± 10,2 N·m após o treinamento, indicando ganho substancial de força máxima sob a condição testada.
Taxa de desenvolvimento de força/torque. A inclinação inicial da curva torque-tempo tornou-se mais acentuada após o treinamento, refletindo aumento da RFD/RTD (rate of torque development) em todas as janelas analisadas. Especificamente, a RFD/RTD aumentou de 1.601 ± 117 para 2.020 ± 119 N·m·s⁻¹ no intervalo 0–30 ms, de 1.802 ± 121 para 2.201 ± 106 N·m·s⁻¹ em 0–50 ms, de 1.543 ± 83 para 1.806 ± 69 N·m·s⁻¹ em 0–100 ms e de 1.141 ± 45 para 1.363 ± 44 N·m·s⁻¹ em 0–200 ms, com significância estatística reportada (P variando entre <0,05 e <0,01).
Impulso contrátil. O impulso também aumentou nas janelas iniciais e tardias do período de 0–200 ms, passando de 0,73 ± 0,04 para 0,91 ± 0,05 N·m·s em 0–30 ms, de 2,12 ± 0,14 para 2,64 ± 0,14 N·m·s em 0–50 ms, de 8,48 ± 0,50 para 10,18 ± 0,45 N·m·s em 0–100 ms, e de 27,97 ± 1,37 para 33,31 ± 1,25 N·m·s em 0–200 ms, novamente com significância estatística reportada.
RFD normalizada. Ao normalizar a inclinação pela MVC, os autores observaram que a RFD normalizada aumentou especificamente na fase mais inicial do desenvolvimento de torque, do início até 1/6 da MVC, com aumento de 536,2 ± 33,5 para 616,2 ± 22,5 %MVC/s, acompanhado de redução do tempo para atingir 1/6 da MVC de 34,0 ± 2,8 para 28,5 ± 1,1 ms. Em níveis mais altos de torque relativo, como até 1/2 e 2/3 da MVC, a RFD normalizada não se alterou de forma relevante segundo os valores reportados.
Sinais eletromiográficos. Em paralelo às mudanças mecânicas, foram observados aumentos pronunciados na amplitude do EMG e na velocidade de elevação do EMG nos primeiros 200 ms. Os autores reportaram aumentos de MAV no início da contração que variaram de 22% a 143% dependendo do músculo e da janela temporal (com destaque para vasto lateral nas janelas 0–30, 0–50 e 0–100 ms), além de aumentos na taxa de elevação do EMG (RER) que variaram de 41% a 106% na fase inicial. Eles relatam também que não houve mudança estatisticamente relevante na amplitude máxima de EMG ao longo de toda a contração, sugerindo que a adaptação mais evidente esteve concentrada na fase inicial de ativação.
Interpretação mecânica aplicada. Um elemento relevante do artigo é a tentativa de traduzir o aumento de impulso em implicações para movimentos rápidos. Com base nas curvas médias, os autores indicam que o tempo para atingir um impulso de 10 N·m·s reduziu de 109 ms para 98 ms após o treinamento, e discutem que essa “economia” temporal poderia permitir maior aceleração e, portanto, maior velocidade de movimento em tarefas muito rápidas, quando o tempo disponível para produzir força é limitado.
Conclusões sustentadas pelos dados observados
Os resultados observados sustentam que 14 semanas de treinamento pesado aumentaram simultaneamente a força máxima isométrica e, de forma relevante para ações rápidas, elevaram tanto a taxa de desenvolvimento de torque quanto o impulso contrátil nos primeiros 200 ms de contração. Em termos de associação fisiológica, os aumentos mecânicos ocorreram juntamente com aumentos marcantes de amplitude e inclinação temporal do EMG no início da contração, o que os autores interpretam como evidência indireta de aumento do drive neural eferente e de alterações no padrão de recrutamento e frequência de disparo no início da ação.
Correção conceitual necessária para divulgação científica
O artigo utiliza a expressão “explosive strength” para se referir à taxa de desenvolvimento de força no início da contração. Do ponto de vista de precisão terminológica e mensuração, a grandeza efetivamente quantificada é a taxa de desenvolvimento de torque, calculada como Δtorque/Δtempo, em janelas temporais explicitamente definidas. Portanto, para divulgação técnica e científica, a denominação mecanicamente e metrologicamente adequada é taxa de desenvolvimento de força ou de torque (RFD/RTD), com unidades explícitas, em vez de adjetivos como “explosivo”, que não descrevem uma grandeza física e podem induzir interpretações ambíguas. Essa correção não muda os resultados, apenas melhora a precisão da linguagem.
Referência
Aagaard P, Simonsen EB, Andersen JL, Magnusson P, Dyhre-Poulsen P. Increased rate of force development and neural drive of human skeletal muscle following resistance training. Journal of Applied Physiology. 2002;93:1318–1326. doi:10.1152/japplphysiol.00283.2002.